TPB...
Na fase depressiva, o Vazio é o intenso sentimento irreal ou real de solidão, não importando quantas pessoas estão por perto, quantas pessoas realmente se importam comigo ou quantas pessoas eu realmente me importo com. A duração deste Vazio pode durar de alguns minutos a até dois meses. Seus sintomas me fazem isolar-me de todos. Com a reclusão, sinto-me an-useless-and-empty-shell. Um abatimento severo compromete o raciocínio lógico e me impede de visualizar alguma coisa além de frustrações. Problemas e mais problemas inexistentes ou de fáceis resoluções surgem e a visão pessimista se consolida nos meus pensamentos automáticos. Minha incapacidade de lidar com frustrações desenterra uma dor psíquica pior que qualquer dor física possível. Esta dor é o Sofrimento. Um sofrimento crescente e que se realimenta rapidamente numa cadeia de problemas e frustrações insolúveis e interligados numa vida rotineira, sem perspectivas e sem sentido. O Sofrimento não dura muito (normalmente apenas alguns segundos), mas é o pior momento da fase depressiva. Logo, ele me leva ao Desespero, que pode desembocar na forma mais extrema, controversa e poética de alívio: a tentativa de suicídio. Estes momentos ou sub-fases marcam o início, meio e fim da fase depressiva de maneira cumulativa num ciclo único, ou seja, o Vazio estará presente em toda a fase depressiva, o Sofrimento apenas no meio e fim, e o Desespero apenas no fim. Mesmo com a atenuação e/ou interrupção parciais ou momentâneas, não há como quebrar esta cadeia, ou seja, não há restart, apenas um pause/resume.
Na fase eufórica há vários ciclos de Vazio-Sofrimento-Desespero não-cumulativos, ou seja, não há um único ciclo com início, meio e fim (como na fase depressiva), mas sim vários. O Vazio se materializa na idéia persistente de que something-is-missing ou tédio. Há uma necessidade incontrolável de encontrar alguma atividade que se torne um hobby apaixonado ou alguém a quem me devotar. A insatisfação pessoal é constante e se transforma numa acelerada, desorganizada e difusa perseguição a algum desafio. Frequentemente há a tentação de se envolver com o perigo e a tendência ao vício se torna praticamente impossível de se vencer. Porém, uma vez que eu atinjo o objetivo ou que conquisto algo ou alguém, perco rapidamente o interesse pela atividade ou pessoa. Esse é o Sofrimento; o sofrimento sádico e a incapacidade de me saciar. Há características mais psicopáticas, como a sensação de onipotência. Atinjo o grau máximo de poder manipulativo, caráter sádico e auto-afirmação. As emoções e os princípios morais ainda existem, mas são facilmente ignorados consciente ou inconscientemente, não apenas para beneficiar a busca pelo objetivo, mas também pelo sádico prazer que sinto em magoar/machucar alguém emocional ou fisicamente. Com a perda do interesse pelo(s) objetivo(s) (sim, podem ser mais de um ao mesmo tempo), segue o Desespero, que se caracteriza por um momento errático e impulsivo de atitudes desastrosas. Perco totalmente o raciocínio lógico e controle sobre minhas ações, que podem variar de uma explosão irasciva, violenta e destruidora (que até hoje não houve ocorrência com pessoas ou animais, apenas com objetos) a tentativas desesperadas, repetitivas e impulsivas de voltar a achar algum incentivo para fugir ao tédio inicial (abuso de substâncias entorpecentes, vício em sexo, gastos compulsórios de dinheiro, etc.). Os principais resultados desta fase são projetos sempre incompletos e incontáveis mudanças de perspectivas e objetivos.
Tenho de ressaltar que, embora possam parecer bem estruturadas e de longa duração, cada fase depressiva ou eufórica pode durar de segundos até alguns poucos dias. Uma das fases sempre se alterna com a outra, ou seja, nunca há duas mesmas fases seguidas. Em ambas há um desgaste emocional constante e cansativo. Minhas emoções são extremamente intensas e as minhas reações emocionais são exageradas e muitas vezes infantis.
O DSM-IV caracteriza o Transtorno de Personalidade Borderline como:
“Um padrão global de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, da auto-imagem e dos afetos e acentuada impulsividade, que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, indicado por, no mínimo, cinco dos seguintes critérios:
(1) Esforços frenéticos no sentido de evitar um abandono real ou imaginário. Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5
(2) Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização
(3) Perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self
(4) Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (p. ex., gastos financeiros, sexo, abuso de substâncias, direção imprudente, comer compulsivo). Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5
(5) Recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automulilante
(6) Instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor (p. ex., episódios de intensa disforia, irritabilidade ou ansiedade geralmente durando algumas horas e apenas raramente mais de alguns dias)
(7) Sentimentos crônicos de vazio
(8) Raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (p. ex., demonstrações freqüêntes de irritação, raiva constante, lutas corporais recorrentes)
(9) Ideação paranóide transitória e relacionada ao estresse ou graves sintomas dissociativos”
Embora seja necessário apenas cinco sintomas dos descritos acima para um diagnóstico preciso de Transtorno de Personalidade Limítrofe, eu convivo com os nove sintomas. Usualmente, há um conflito de emoções e personalidades paradoxais que me leva à confusão mental e à busca de uma identidade verdadeira que ainda não encontrei. De fato, até agora, eu não tenho a mínima idéia de quem eu realmente sou.


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